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Bolsonaro só resolverá a crise ambiental se deixar de ser Bolsonaro



As queimadas na floresta amazônica não param de render manchetes e dores de cabeça para os brasileiros. Seja entre produtores rurais temerosos de sanções aos membros do próprio governo, a coisa parece ter chegado em uma situação insustentável - e nem tanto pelo incêndio em si, mas sim pela dimensão internacional que o evento tomou. Mas quando exatamente a coisa descambou para uma crise? 

A coisa começou bem atrás, e os apoiadores do governo que falam em interesses comerciais norteando a postura do presidente francês Emanuel Macron estão corretos. O embusteiro Macron só queria um motivo para furar o acordo da União Europeia com o Mercosul. De modo frio ele esperou que o presidente Bolsonaro desse motivos - e Jair deu ao tratar o assunto de forma secundária em um primeiro momento. 

Agora não adianta só atacar o francês nas redes ou falar duro. Com ou sem acordo já se fala em boicote a carne brasileira. Os produtores rurais sabem que o europeu é inclinado a esse discurso, mas pragmáticos que são preferem a lógica de que o cliente tem sempre razão. É exatamente por isso que já se ouvia no setor que as políticas ambientais do governo estavam equivocas. Eles não têm tempo para nossas vãs filosofias, o que leva a crer que haverá pressão do próprio setor para que o Brasil acate certas imposições mesmo com dados favoráveis à narrativa do governo. Tanto é que o agro brasileiro é um dos mais competitivos do mundo, se adequando tanto aos padrões europeus quanto às exigências religiosas dos países islâmicos.

Macron só comprou essa briga por sentir que Bolsonaro é capaz de jogar o pragmatismo pro alto para cantar de galo - deixando produtores desconsolados enquanto os franceses deitam e rolam. Veja, os estrangeiros acusadores de Bolsonaro não levam em consideração apenas as queimadas recentes, mas também imposturas do presidente com outros biomas. Que ninguém pense que passará batido a tentativa de acabar com as diretrizes de proteção que limitam construções e visitas em Fernando de Noronha ou no litoral fluminense. Outro episódio controverso na gestão ambiental foi a transferência do oceanógrafo do ICMBio lotado em Noronha para o sertão pernambucano como retaliação pela resistência técnica do servidor contra as propostas do governo para o arquipélago. Isso sem falar da exoneração do servidor do Ibama que o multou por pesca irregular em Angra anos atrás, ou mesmo a proposta de levar mineração para áreas demarcadas pela Funai.

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Há que se colocar a bola no chão. Como foi muito lembrado pelas redes sociais de apoiadores do presidente, vários países registraram queimadas sem sofrer qualquer tipo de sanção ou boicote por isso. Nas redes bolsonarista circulam imagens de grandes incêndios em países como Espanha, Inglaterra, Portugal, Estados Unidos e Austrália. Muito simples: nenhuma. Primeiro que não havia interesse de exploração comercial tão acentuado quanto na Amazônia - mas isto é o óbvio. A diferença é que o discurso das autoridades ambientais não era contra o consenso já estabelecido. Nenhum destes países teve no poder quem emitisse discursos tão polêmicos sobre preservação ambiental - nem mesmo Donald Trump foi tão longe quanto Bolsonaro. Vamos lembrar que no início do ano o presidente bateu de frente com ambientalistas ao vetar a realização da Conferência Mundial do Clima no Brasil. Depois começou um embate desnecessário com países europeus (principalmente a Alemanha), isso muito antes das notícias de queimadas (que estão dentro da média histórica). Ainda que a ação de ONGs estrangeiras tenha certo viés político, é no mínimo irresponsável acusar estas entidades de estarem por trás destes incêndios. Tirando os likes entre a militância tudo o que o presidente conseguiu nesta história foi passar ao mundo a impressão de desequilíbrio.

O que o presidente poderia ter feito para calar a boca de tipos como Macron era ter criado uma comissão interministerial para combater a crise, sinalizando ao mundo que a Amazônia legal tem dono - e que este dono cuida dos recursos de forma competente e que não irá admitir interferências ou lobbys antagônicos aos interesses nacionais. Mas não: tanto ele quanto o ministro Ricardo Salles preferiram jogar para a plateia governista. A existência do "farms here forest there" é real e sempre fez parte do debate. Jair poderia ter feito falado em desenvolvimento responsável e sustentável, poderia inclusive utilizar isso para ampliar sua plataforma de governo. Ainda que os resultados iniciais fossem modestos o discurso por si só cairia bem. Veja o caso da seca no Nordeste, por exemplo. Muitos se impressionaram com a proposta de dessalinização da água por meio de tecnologia israelense. Aquilo foi uma boa jogada do presidente, que por incrível que pareça preferiu confiar apenas no próprio senso de destino manifesto para lidar com a Amazônia.

Macron pegou em um dos calcanhares de Bolsonaro, que pagará não pelas queimadas - mas sim pelo conjunto da obra. Macron inclusive pretende se valer da virulência do presidente para retrata-ló como uma ameaça. Isso é problemático porque Jair não é Trump, não podemos prescindir de parceiros comerciais. Agora é ver quem ganha, se é a ideologia exacerbada do governo ou o pragmatismo responsável dos produtores. O que se pode cravar é que Bolsonaro só resolverá esta crise se deixar de ser Bolsonaro.

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