Ads Top

Daenerys e a insuportável misericórdia dos revolucionários


Os fãs de Game of Thrones assistiram horrorizados a pretendente ao Trono de Ferro Daenerys Targaryen sobrevoar King's Landing destruindo a capital dos Sete Reinos e transformando em pilhas de cinza e carvão seus habitantes. O genocídio veio depois que os soldados baixaram suas armas e tocaram os sinos em sinal de rendição. Ainda assim Khaleesi entendeu que eles deveriam ser dizimados. 

Antes disso ela havia imolado o eunuco Lord Varys, um dos mais importantes agentes políticos de Westeros e provavelmente um dos aliados mais importantes que a monarca já teve. Possuidor de um aguçado faro político, Varys foi homem forte da inteligência durante anos na capital até cair em desgraça após a ascensão dos Lanister. Varys sempre afirmou que sua preocupação não era com o Rei, mas com o Reino. Em resumo, um estadista. Pouco antes de seu fim trágico ele foi o primeiro a considerar que a suposta libertadora havia herdado a loucura de sua família, representando perigo para a estabilidade do reino. O preço pela defesa da ordem e liberdade foi ser queimado vivo pelo dragão Drogon. 

O espanto com a loucura de Daenerys não é injustificado apenas pelo histórico familiar já explorado na série (seu pai foi morto em um golpe palaciano após uma série de rompantes que resultaram em atrocidades), como também pelo próprio desenvolvimento da personagem. Vale lembrar a morte de seu irmão Viserys, onde a sórdida aspirante a libertadora pareceu insensível diante da perda de seu único parente vivo. Em que pese os abusos praticados pelo irmão, aquele era seu único familiar vivo conhecido até então. Mas de longe não foi a maior demonstração de crueldade de Daenerys, que mais tarde presentearia o público com uma série de massacres desnecessários nas cidades de Meereen, Yunkai e Astapor. Supostamente era para libertar escravos, mas a falta de retorno político significativo deixa claro desde o início de que tudo não passava de uma justificativa para alimentar o apetite da rainha Targaryen por sangue. Sua sede assassina a levou a matar de forma indiscriminada desde o princípio, como na morte do pai de seu marido Hizdahr zo Loraq. O comerciante de escravos se opôs a crucificação de crianças como sinal de advertência para a invasora Daenerys, mas perdeu sua vida mesmo assim.

A "ideologia" de Daenerys pode ser sintetizada nos seguintes termos: cidadãos de diversas partes são oprimidos por tiranos impiedosos que não governam para o povo, mas para suas conveniências. Daenerys traz consigo a liberdade, por isso deve ser amada. Daenerys é uma verdadeira crente na utopia do bem absoluto, aquele que será instaurado na terra após a extirpação do bem absoluto (a oposição ao bem absoluto pode ser tanto seus antagonistas tradicionais como qualquer um que faça qualquer objeção). A Quebradora de Correntes crê que seu mundo ideal só pode ser edificado sob as cinzas do mundo conhecido. Por estar acima dos interesses mesquinhos e da lógica tradicional, Daenerys logo é a própria encarnação dos mais nobres ideais - contrariá-la é se colocar contra o que há de mais belo e sublime, portanto deve ser punido de forma impiedosa. 

continue depois da publicidade



Aliás: notem que a libertadora Daenerys não era muito dada a negociações. A rainha queria simplesmente destruir a cultura de Meereen, Astapor e Yunkai, se sentindo ofendida quando os governantes desta última aceitam sua soberania com a condição de que a tirana mantenha as arenas de luta. Daenerys fica cada vez menos suscetível ao protocolo da prática política e da diplomacia muito antes de queimar gente inocente por capricho. Para ela a negociação é sinal de fraqueza, quando na verdade ela despreza estas convenções por não obter o lucro total que espera ao ter que negociar o que quer que seja. O estilo de Daenerys é o oposto: ela prefere destruir uma cidade inteira do que ceder qualquer migalha.

Quem já leu "Reflexões sobre a Revolução na França" provavelmente não irá apreciar o modus operandi de Daenerys. Ali o parlamentar Edmund Burke expõe suas preocupações e reservas com o processo revolucionário que depôs a monarquia em nome da liberdade, igualdade e fraternidade apenas para instaurar sua própria versão de terror. A religião foi abolida em nome da Razão, que chegou a ser objeto de culto na Catedral de Notre-Dame. A guilhotina foi transformada em uma espécie de moto-perpétuo enquanto o sangue jorrava. A indústria da morte implementada pelos revolucionários iluministas foi tão bem-sucedida que não poupou sequer figuras como Georges Jacques Danton, Camille Desmoulins e Maximilien de Robespierre. O interessante da oposição de Burke ao processo revolucionário francês é justamente seu apoio anterior as posições defendidas pelos revolucionários que promoveram a Independência dos Estados Unidos. No primeiro processo houve a materialização das demandas dos colonos junto com uma ponderação reformista no Estado - exatamente o contrário do que foi feito na França, onde se tornou majoritária a posição dos que pretendiam destruir a França para erigir um estado livre sob as ruínas do Antigo Regime. Foi justamente esta sanha que levou a Revolução a matar mais em dez anos do que o Reino da França desde Carlos, o Calvo (que herdou o território correspondente a França moderna por meio do Tratado de Verdun em 843) até a tomada do poder pelos revolucionários ainda no reinado de Luís XVI em 1792. 

A lógica dos revolucionários é sempre a mesma, assim como seus frutos amargos são bem conhecidos. Seja no Irã da década de 70, quando jovens influenciados pelas vanguardas de esquerda foram as ruas contra o Xá da Pérsia e instalaram no poder uma teocracia de aspirações medievais que destroçou todas as liberdades e levou o país de volta a Idade Média, seja na Rússia do século XX onde um processo iniciado por social-democratas e com a simpatia de liberais acabou sequestrado por bolcheviques que instrumentalizaram a ruptura para transformar o país em União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O processo revolucionário é isso, e o preço a se pagar é alto justamente por se representar um divórcio litigioso entre o presente e o passado. As estruturas já consolidadas que levaram anos (por vezes até séculos) para serem elaboradas são substituídas por pressupostos surgidos nas trevas da mente de revolucionários. Sejam eles oriundos da academia, dos sindicatos, da igreja, de estudantes ou de trabalhadores, os revolucionários dependem do caos e da instabilidade. Tudo o que há de concreto costuma ser sedimentado pelo tempo, pelo costume e pela legitimação decorrente do consentimento das sucessivas gerações. O tempo não está a favor dos processos revolucionários, e é justamente por isso que seus valores só podem ser consolidados por meio do medo.

O que nos é apresentado por meio da loucura de Daenerys Targaryen é a lembrança de que o homem é capaz dos gestos mais sublimes aos mais degradantes. Não há que se atribuir poderes ilimitados a quem quer que seja, já que o monstro a ser combatido pode muito bem se materializar no justo que possuí prerrogativas ilimitadas. Não é por acaso que o conservador sempre desconfia dos que se dizem representantes supremos do bem e da vontade popular. Para Burke "é um erro popular muito comum acreditar que aqueles que fazem mais barulho a lamentarem-se a favor do público sejam os mais preocupados com o seu bem-estar". Ora, alguém se lembra de Hugo Chávez anunciando que iria prender jornalistas, armar milicianos e massacrar seu próprio povo? Provavelmente não.

A lógica da materialização da utopia por meio da revolução também contraria os princípios conservadores identificados por Russel Kirk sobre a existência de uma ordem moral perene, adesão ao costume, às convenções e à continuidade, princípio da prescrição, prudência, diversidade, imperfectibilidade, bem como a necessidade de restrição prudente sobre o poder e sobre as paixões humanas e a necessária conciliação entre permanência e progresso para a construção de uma sociedade virtuosa. Revolucionários acreditam no oposto: tudo o que não é igual a mim deve ser destruído, tudo o que veio antes está necessariamente viciado e a paz deve ser obtida de forma violenta se assim for necessário. Ao revolucionário não interessa frear as paixões humanas, já que isso o deixaria sem ação. Também não interessa reconhecer a imperfeição do homem. Isso por si só colocaria abaixo sua narrativa sebastianista. 

Não deixa de ser engraçado o fato da personagem de Emily Clark ter se transformado em heroína dos progressistas nas redes sociais. Milhares de mulheres começaram a batizar suas filhas com os nomes de Daenerys e Khalesi, além de suas citações terem provocado frenesi com suas declarações lacradoras sobre liberdade. Não é por acaso que encontramos nas mais variadas manifestações culturais e povos o aforismo perene "O Caminho para o Inferno é cheio de Boas intenções", repetido por personagens tão distintos quanto Sir Walter Scott, Lord Byron, Bruce Dickinson e, vejam só vocês - Karl Marx. 


Curta o Reacionário no Facebook:


[left-sidebar]
Tecnologia do Blogger.