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As coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas



Sobre o incêndio da catedral de Notre Dame em Paris. Texto publicado originalmente no Facebook.

Episódios como este explicam uma das essências do conservadorismo. Foram anos para que a humanidade reunisse o conhecimento necessário para construir esta edificação de cunho religioso que tinha por finalidade ser eterna (do ponto de vista humano, é claro). Sua construção empenhou grande mobilização de recursos e homens. Provavelmente até algumas vidas foram sacrificadas neste processo. Ali se empregou o que havia de mais moderno, sofisticado e sublime.

Uma vez edificado, o prédio se tornou parte da identidade dos habitantes da cidade e do país. A construção testemunhou guerras, fome, prosperidade, regimes distintos e os sucessivos governos. Seu simbolismo se consolidou com o passar das eras, convertendo o sonho de homens do passado em fortaleza dos homens do presente. Se consumiu em chamas em apenas alguns instantes, neutralizando com fogo o que muitos empregaram a alma. Se for reconstruída, jamais será a Notre Dame que o mundo conheceu - mas sim um mero simulacro do que aquilo já representou. É provável que as modernas construtoras consigam reerguer o prédio das mesmas dimensões e formas, mas sem o elemento humano dos que a construíram com as próprias mãos. Mas claro, será algo triste - já que o moderno diz muito sobre o nosso tempo e muito pouco sobre o eterno.

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Aos que sempre anseiam por revoluções, por rupturas e pela imposição do moderno e sua autoridade sobre as coisas do passado, Notre Dame deixa a lembrança amarga de que a glória do passado levou tempos para se materializar pois precisou de se alimentar do sacrifício de muitas vidas e gerações. Cada homem deu sua contribuição por ter aprendido com seus antepassados - responsáveis diretos pelo degrau acima que permitiu ao cidadão ver um pouco mais adiante que os que o antecederam neste plano.

Daí a razão pela qual o que podemos fazer é lapidar nosso legado civilizacional -mas jamais quebrar tabus pela simples rebeldia adolescente ou pela arrogante presunção de que os que vieram antes de nós eram simples ingênuos que não sabiam de nada. Talvez fosse até o contrário: por viverem em um mundo mais primitivo nossos antepassados tinham a ciência da pequenez do homem diante do universo, daí seu esforço em valorizarem mais o que era eterno.

Como diz a mais famosa das citações de Roger Scruton em seu livro "Como ser um conservador": "O conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade: a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas. Isso é verdade, sobretudo, em relação às boas coisas que nos chegam como bens coletivos: paz, liberdade, lei, civilidade, espírito público, a segurança da propriedade e da vida familiar, tudo o que depende da cooperação com os demais, visto não termos meios de obtê-las isoladamente. Em relação a tais coisas, o trabalho de destruição é rápido, fácil e recreativo; o labor da criação é lento, árduo e maçante. Esta é uma das lições do século XX. Também é uma razão pela qual os conservadores sofrem desvantagem quando se trata da opinião pública. Sua posição é verdadeira, mas enfadonha; a de seus oponentes é excitante, mas falsa."



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