Ads Top

O problema é que o governo Bolsonaro é uma Quimera


Se acumulam no noticiário casos de conflitos internos entre os diversos componentes do governo Bolsonaro. A mais recente divergência (e talvez a que mais trouxe desgastes a gestão) foi a briga de foices entre o núcleo militar e o núcleo influenciado pelo filósofo Olavo de Carvalho. A presença dos militares no governo estabeleceu um fosso que dificulta a implementação de diversos pontos da agenda olavista - entre eles o alinhamento automático com os Estados Unidos e diretrizes mais ideológicas no Ministério da Educação. Nomeações feitas no Ministério das Relações Exteriores também aumentaram a fervura. 

Ao contrário do que parece, o governo Bolsonaro nunca foi homogêneo - o que é claro, faz parte da composição de qualquer grupo postulante a um governo majoritário.  No entanto o que faltou foi uma articulação entre os diversos componentes para que cada um de seus agentes já estivessem plenamente cientes do que seria este governo em caso de vitória nas urnas. 

O governo Bolsonaro se edificou nas urnas com base em diversos setores da sociedade. Para se tornar viável, o então deputado reuniu em torno de si evangélicos, militares, ruralistas, representantes do mercado financeiro, empresariado e indústria. Completando o quadro estão os agentes do judiciário favoráveis a Operação Lava Jato. Entre os políticos o arco de aliança foi ainda maior - já que contou com liberais, neoconservadores, centristas e até setores tradicionalmente ligados a centro-esquerda (como diversos rebeldes do PSDB que deixaram de votar em Geraldo Alckmin para apoiar o capitão reformado). 

O problema é que parece que não houve uma conversa prévia sobre o espaço que cada um dos setores teria e qual seriam seus limites no exercício do poder. Além disso não se levou em conta a  necessidade da comunicação e articulação política feitas de forma profissional. O governo ainda não assimilou o fato de que a campanha se encerrou em 28 de outubro com a vitória de Bolsonaro, e que daqui em diante o ex-deputado polêmico se tornou chefe de Estado - cargo que não implica apenas em triunfo político, mas sim em uma série de responsabilidades e protocolos.

continua depois da publicidade



Ao fundir uma série de elementos com agendas próprias que não necessariamente convergem o governo deveria ter alinhado melhor suas posições. O que acontece  agora é que o governo não parece uno, mas sim uma miríade de elementos divergentes que parecem mais enxertos malfeitos em um corpo estranho. Lembra em muito a Quimera, o monstro mitológico derrotado por Belerofonte. Filho de Equidna (metade mulher, metade serpente) e o gigante Tifão. A Quimera era um ser híbrido que segundo a versão mais difundida (de autoria de Homero) possuía três cabeças - a de leão no pescoço, uma de cabra brotando no meio das costas e uma de serpente onde deveria terminar a cauda. Além de híbrida, a Quimera soltava fogo pelas narinas. Talvez seja a figura mais adequada para retratar este governo. 

É de se imaginar que uma criatura como a Quimera fosse pouco funcional, tanto pela desarmonia entre seus componentes quanto pela disposição de muitos recursos para muitas cabeças diferentes em um único corpo. Em que pese a narrativa mitológica dizer que era muito temida é de se supor que uma criatura destas não iria inspirar tanto medo caso existisse de fato. Seria uma criatura fadada a morte, já que suas cabeças entrariam em conflito - podendo desejar a morte de seu companheiro de corpo mais até do que neutralizar eventuais oponentes. 

Talvez seja o que se passa no governo Bolsonaro. A disputa que se dá no seio do governo aponta para um caminho nefasto para um país que já foi destruído pelo governo petista, podendo perder agora o que restava de nossa institucionalidade. Também é preciso deixar claro para o leitor mais apaixonado que algumas pretensões do núcleo ligado a Olavo de Carvalho e dos próprios filhos podem colocar abaixo este arranjo de forma irrecuperável. Os militares (que hoje são os mais interessados no sucesso do governo Bolsonaro, já que isso compromete toda a instituição) são ao mesmo tempo os maiores beneficiários de uma eventual queda - já que o vice do presidente é um General que nunca escondeu suas aspirações políticas. Melhor do que pensar apenas em seus horizontes, cada um dos componentes (principalmente os ligados a Olavo, que até o momento são os mais exaltados) devessem considerar a hipótese de que embora diferentes - estão todos no mesmo corpo, e que a morte de um componente do governo pode representar a própria ruína. 


Tecnologia do Blogger.