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O preço das ligações perigosas





Todos os brasileiros já estão cientes dos desdobramentos do caso Marielle Franco enquanto estas linhas são escritas. Considerações sobre o caso em si e as possíveis narrativas políticas que dele derivam serão tratados em outra publicação. O objetivo aqui é tratar de Jair Messias Bolsonaro e sua família, que aparecem lateralmente implicados na história. 

Não, até o momento não há o menor indício de que o presidente da República ou algum de seus filhos tenha qualquer relação com a execução que não um antigo namoro do filho caçula Renan Jair Bolsonaro com a filha do PM Ronnie Lessa, autor dos disparos que mataram a vereadora do PSOL e seu motorista Anderson Gomes. 

No entanto é de se supor que nenhum agente da oposição ou da imprensa irá se contentar com isso. Muita água há de rolar debaixo desta ponte até que o caso seja finalmente elucidado, com mandantes presos e seus organismos criminosos devidamente desmantelados. Até lá o mais provável é que o presidente se torne alvo da artilharia de seus opositores, e quanto a isso não há muito que se fazer que não adotar a cautela. 

O problema é que o presidente nunca foi muito cauteloso em suas ações, ao contrário: seu grupo político sempre teve inequívoco apreço pela temeridade. Apostam alto em questões menores como a divida entre os irmãos Carlos e Eduardo contra o militante pró-armas Benê Barbosa - que questionou as medidas anunciadas para a flexibilização do porte de armas por estarem anos-luz de distância do que fora prometido em campanha. Disseram que era fake news para no fim confirmarem tudo. O mesmo se deu com setores da imprensa que publicaram notícias questionadas pelo presidente que seriam confirmadas posteriormente. Carlos chegou a derrubar um ministro, suscitando a fúria de quadros políticos do governo e do setor militar. Durante o Carnaval foi a vez do presidente compartilhar um vídeo adulto em suas redes sociais que desagradou até parte de seus mais ferrenhos apoiadores. Segundo relatório elaborado pela Secretaria Especial de Comunicação Social (SECOM), 69% das menções ao caso nas redes sociais foram negativas. Assim como tantas outras divididas desnecessárias do presidente e de seu entorno que não trouxeram resultado diferente de desgaste.

O que se ganha com isso? Coisa alguma. E é por ter gasto energia com assuntos irrelevantes e se envolvido em escaramuças desnecessárias que o presidente chega a este conflito fragilizado. Enquanto setores majoritários da imprensa estão focados em relacionar o presidente a milícias que agem no Rio de Janeiro, o presidente não tem nada de concreto para estabelecer uma agenda positiva em meio ao caos instalado no debate público brasileiro. 

Tudo começou errado quando se estabeleceu que o grupo do presidente poderia abrir mão de posturas protocolares e permanecerem no mesmo modus operandi da campanha. Depois vieram as articulações para destruir membros do próprio governo. Muita gente interessada em agendas particulares e poucos interessados em governar o Brasil. Chegou-se ao ponto de nomes da cúpula confessarem a jornalistas que a reforma da Previdência sequer tem apoio total dentro do PSL - justamente o partido do presidente. Em meio a zorra Olavo de Carvalho entra em cena mirando canhões nos militares que tentaram conter os ânimos exaltados de alguns integrantes ligados ao filósofo. Mais uma vez, o que se ganhou com isso foi nada. 

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Mas não foram só as imposturas atuais que prejudicaram Bolsonaro, as anteriores resolveram cobrar a fatura. A deificação do militarismo promovida pelo presidente e por seus filhos cobrou um preço muito alto. A oposição a CPI das Milícias e falas do presidente enquanto deputado defendendo a legalização das milícias se somaram aos fatos negativos que cercam seu filho Flávio, que em 2011 declarou que a juíza Patrícia Acioli havia feito muitos inimigos por "humilhar policiais em julgamentos". O problema é que a juíza lidava justamente com policiais que haviam descumprido seus juramentos e enveredado pelo caminho do crime utilizando a camuflagem de agentes do estado. O fato voltou a tona porque o tal PM Ronnie Lessa era lotado na mesma guarnição do tenente-coronel Cláudio Luiz Silva de Oliveira, condenado a trinta e seis anos de prisão por ter ordenado a morte da juíza - justamente por conta da "perseguição" que ela promovia contra milicianos. 

Sim, isso é devastador.

É evidente que fotos, namoricos de adolescentes ou mesmo a proximidade física entre a casa do presidente e a do policial miliciano não são atestados de culpa - nem as autoridades ousam dizer isso. Também não há no horizonte qualquer razão que justifique cogitar o envolvimento do presidente ou de seus filhos na morte da vereadora. Mas ainda assim causa desconforto e constrangimento. O presidente da República mantinha relações perigosas. 

É evidente que não há a motivação, mas isto em política não costuma importar tanto. Imaginem se no período do impeachment se descobrisse a ligação de membros do governo com o PCC. Seria um escândalo que aceleraria o processo. Nem de longe Bolsonaro enfrenta os mesmos desgastes que Dilma, mas é inequívoco que o presidente poderia estar melhor. E que muitos adversários que ele fez nos últimos três meses poderiam estar a seu lado governando com ele. Quanto a classe política, ela ainda não rompeu com o presidente - mas é certo que pretendem cobrar mais caro pelo apoio após testemunharem o filho do presidente imolando um ministro em praça pública.

Se Bolsonaro e seus filhos fossem mais prudentes la atrás dificilmente estariam em apuros agora. Mas assim como parte majoritária da direita brasileira, preferiram a opção pelo discurso simplista e pela fetichização das Forças Armadas e policias militares. No universo concebido por eles não existe truculência policial ou corrupção nas tropas, assim como o regime militar foi perfeito - sendo que qualquer cidadão de farda é indiscutivelmente superior a qualquer civil. Foi por isso que essa gente suja se aproximou deles, e é pela falta de prudência, comedimento e ponderação tão caras aos conservadores que agora estão enredados por este escândalo. 

Se o presidente pretende governar, o segredo é ajustar a comunicação e deixar de atravessar a rua para pisar em casca de banana. Também ajuda calar a boca dos filhos e se inspirar em estadistas do passado ao invés de mirar em caudilhos destas republiquetas latino-americanas. A fala arrogante dirigida por integrantes de seu governo e pelo próprio filho contra liberais e conservadores que manifestam críticas pontuais também deve ser suprimida, eles não estão mais em condições de dispensar o apoio de ninguém. Afinal de contas, se nos três primeiros meses já estão metidos nestas confusões o bom senso recomenda que ajustem a conduta para que Jair Messias Bolsonaro não se torne um Collor II de farda.


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