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Bolsonaro e a Balsa da Medusa

" Le Radeau de la Méduse". Theodore Géricault, 1818.


Levantamento feito pelo IBOPE mostra um cenário preocupante para o presidente Jair Messias Bolsonaro, conforme publicado no UOL. De acordo com o instituto de pesquisas, o presidente perdeu 15 pontos de popularidade nos últimos três meses - contexto que o coloca na desconfortável condição de ser o presidente estreante mais mal-avaliado desde a redemocratização.

Veja os números:




É claro que nenhum governo que paute a reforma da previdência irá disparar em popularidade, mas não é razoável supor que um presidente em primeiro mandato eleito de forma maiúscula como Bolsonaro enfrente tamanha rejeição em um espaço de tempo tão curto. Há algo de muito errado aí.

É evidente que apoiadores do presidente irão desqualificar a pesquisa por ser do IBOPE ou por ter sido publicada em primeira mão pela Revista Piauí, do Grupo Folha. O caso é que uma das coisas que política não admite é a negação da realidade: quem parte desta premissa já começa perdendo.

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É claro que alguns institutos fazem previsões erradas e que os veículos da grande imprensa dedicam suas vidas para desestabilizar, deslegitimar e derrubar o governo Bolsonaro. E isso não espanta ninguém: é algo da qual temos conhecimento desde que o deputado federal manifestou seu desejo de se tornar chefe de Estado. Mas se sabemos que o dono do morro não vai com a nossa fuça o mais correto é se afastar de seu território ao invés de ir ao baile funk organizado por ele. Até o momento o governo não ficou uma única semana sem municiar seus adversários. São recuos, anúncios e falas constrangedoras, imposturas na comunicação pública, negação de promessas de campanha, confusão entre público e privado e até o flerte com idéias que contrariam os interesses nacionais em prol de suposições ideológicas.

Se separarmos aqui aquela fatia do eleitorado que jamais irá apoiar ou elogiar um governo de direita, ainda teremos algo em torno de 70/80% que estão abertos a considerarem a hipótese. E é inadmissível que o presidente perca apoio até de quem o elegeu, ainda mais se considerarmos a questão do tempo. O mais provável aqui é que as confusões palacianas, as ingerências dos filhos e trabalhadas diárias respondidas com recuos não estão agradando nem o sujeito mais condescendente, restando apenas aos apoiadores mais apaixonados as defensas mais contundentes. 

Não preciso aqui levantar os acertos do governo (que são vários), mas isso não serve para amenizar o desgaste causado por ações dos próprios organizadores. Veja que em alguns temas o governo se posiciona de forma tão amadora que chega a causar pânico nos próprios aliados. Isso para não dizer daquele vídeo publicado pelo presidente no feriado de Carnaval. Segundo levantamento feito pela Secretária Especial de Comunicação Social, 69% das menções ao vídeo publicado pelo presidente no Twitter foram em tom negativo - incluindo parte considerável da massa de seguidores de Bolsonaro.

O recado aqui é claro: ou o governo se acerta colocando focinheira nos aloprados, tratando a comunicação de forma profissional enquanto seus membros resgatam os protocolos institucionais vandalizados durante a Era Petista ou as consequências serão terríveis. A situação atual do governo é dramática, lembra em muito o desespero dos tripulantes da Balsa da Medusa. Para quem não conhece a história por trás da célebre obra do francês Théodore Géricault, a história gira em torno da figura do visconde Hugues Duroy de Chaumereys, um capitão inexperiente que recebeu o comando da fragata Medusa e a missão de levar a embarcação até o Senegal para receber do Reino Unido uma porção daquele território conquistada pela França no Tratado de Paris. Para reduzir o tempo de viagem, o capitão conduziu a fragata Medusa a frente das demais embarcações que faziam parte da missão - fato que teve como consequência o encalhe em um banco de areia perto da Mauritânia. Sem ter como seguir viagem, parte dos tripulantes que não pode seguir nos barcos auxiliares foi obrigada a embarcar em uma jangada feita as pressas. Os esforços para o reboque da jangada deram em água, deixando os tripulantes entregues a própria sorte. Foram treze dias a deriva no mar, uma tragédia que teve como resultados mortes por inanição, suicídio de desesperados e até atos de canibalismo - até que o navio Argus cruzasse com a embarcação por mero acaso. Dos 146 tripulantes que se refugiaram na balsa, apenas 15 foram encontrados com vida. 

A vantagem é que Bolsonaro ainda é apoiado pela maioria dos brasileiros apesar de suas idiossincrasias. Se quiser entrar para a história como um bom presidente nosso capitão deverá orientar os seus a ouvirem mais os críticos responsáveis ao invés de fingirem que este governo é ungido com o dom da infalibilidade. Ouçam mais os direitistas críticos, os técnicos do governo e medalhões como o General Augusto Heleno e o ministro Paulo Guedes. Ao leitor mais apaixonado, fica o recado: "Se estes se calarem, as pedras clamarão".


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