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O intrincado xadrez palaciano do governo Bolsonaro



No meio destas polêmicas em torno das divergências e brigas palacianas no seio do governo Bolsonaro, há única certeza é de que tudo o que é sólido pode derreter. Quem diria há coisa de dois ou três meses que o poderoso Gustavo Bebbiano seria imolado em praça pública pelo filho caçula do presidente - justamente Carlos, o que detêm as chaves do reino e que foi chamado pelo pai de "seu pitbull"?

É claro, hoje em dia não há exercício mais ingrato do que tentar analisar os movimentos do grupo político do presidente. Quem tentou fazê-lo inspirado nos cânones antigos da análise política acabou perecendo, já que o rodriguiano Sobrenatural de Almeida decidiu se fazer hegemônico na política. Pode ser que este intrincado xadrez jogado de forma temerária dê certo, mas é inegável dizer que não terá suas consequências. O modo como as disputas palacianas se desenrolam pode trazer prejuízos até mesmo para os que se saírem vencedores.

Um exemplo das consequências possíveis é o temor de que um aliado do governo poderá ser atacado pelo filho do presidente. Por mais que se coloque o filho como independente, o mais correto é admitir que Carlos age com alvará de seu pai. Do contrário já teria sido desautorizado antes. Seja como for, não há segurança alguma em uma relação em que um ministro poderá ser fritado pelo carrasco presidencial?

Bom, não é improvável que outros ministros tenham conversado entre si sobre a possibilidade de se tornarem alvos de Carlos no futuro. Também é provável que algum dos mais próximos tenha se queixado ao presidente por conta da deslealdade, já que roupa suja se lava em casa. Quando se extrapola uma questão interna para o público, significa que não há mais time. Quer dizer que o presidente é alguém que descarta aliados depois que conquista seu objetivo?

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Em política existem alguns limites sacrossantos. Um deles é de que traições e falta de consideração com aliados custam caro. Se um aliado é flagrado no pior dos casos, não cabe a quem está do lado condenar - isso é papel da justiça. O que pode ser feito é se posicionar de forma clara em defesa de investigações para que os fatos sejam devidamente apurados. Jogar aos leões não é muito razoável.

Imaginem no caso do presidente, que agora é obrigado a lidar com o constrangimento de ver um secretário sugerindo a imprensa que "não deixa o cargo", que "o que chamam de inferno ele chama de lar" e que "o presidente teve medo de ser atingido" pelas denúncias contra o PSL? Se a crise se aplacar e Bebbiano continuar no cargo, ficará a suspeita de que esteja chantageando o presidente (o que é péssimo). Será igualmente terrível se Bebbiano sair atirando. Qualquer vírgula dita por ele será arma nas mãos das esquerdas, da imprensa amestrada e do establishment que sempre tentou inviabilizar Bolsonaro. Se for correta a suposição de que Carlos age apenas com autorização de Jair e que tudo não passou de um "recado", a estratégia se mostra péssima. Seria melhor ter demitido o cara de imediato. Há também os que alegam que a estratégia blinda o presidente. Não é bem assim: se antes Jair tinha que lidar com o problema Bebbiano e o suposto laranjal, agora terá que lidar com gente farta da forma com que membros do governo e aliados tem sido tratados pelo filho do presidente. 

Aliás, esta relação deve ser revista. Caso o presidente queira mesmo ter Carlos no papel de "Mão Direita do Rei", ele terá de oficializar a questão conferindo um cargo ao filho. Pela lei é possível fazer, é só Carlos se afastar do mandato de vereador ou abrir mão de sua cadeira na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. O que não é possível e talvez flagrantemente inconstitucional é que o filho do presidente se torne um ministro sem pasta fazendo as vezes de eminência parda no debate público. Fosse o Brasil uma província, o filho do presidente poderia arrogar para si a função de "filho do presidente", assim como acontecem em algumas republiquetas e cidades do interior dominadas por coronéis. Como presidente da República, Jair deverá escolher: ou oficializa o filho com cargo e com as responsabilidades públicas dele decorrentes ou dispensa o jovem para que ele se dedique exclusivamente ao cargo para qual foi eleito por 106.657 eleitores fluminenses.

É bom frisar que a preocupação com este estado de coisas não de quem quer que o governo dê errado, ao contrário - estes estão torcendo é para que a anarquia se instale, com filho atacando aliados e expondo ministros. O caos dá sobrevida aos que foram escorraçados do poder pelo impeachment. Quem é conservador quer ordem, inclusive na presidência da República. Conservadores querem respeito a coisa pública e aos ritos do Estado. 

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