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A imprevisível batalha do Senado, o golpe de Renan e as cenas lamentáveis: ninguém concebeu algo assim



De fôlego recuperado depois de tantas reviravoltas, gritos, acusações e escaramuças, podemos enfim nos debruçar sobre o episódio da eleição de Davi Alcolumbre com mais calma e sem perder atenção em certos detalhes da contenda que culminou na eleição mais acirrada da história do Senado. Até porque não houve viva alma neste país que tenha previsto aqueles acontecimentos ou o desfecho daquela campanha.

Até o dia do confronto havia quase uma unanimidade em torno de Renan Calheiros. Não que alguém gostasse dele, mas o viés das análises feitas tanto pela extrema-esquerda quanto pelo mais fiel dos governistas era de como a eleição do cangaceiro iria influenciar a pauta política, já que era dado como certo que ele concretizaria suas pretensões de retorno a cadeira. Este blogueiro inclusive chegou a falar que a candidatura de Renan estava subindo no telhado, mas mesmo assim me impressionei pelo passa-moleque que ele deu na senadora Simone Tebet ao reaver a condição de candidato do MDB. Em resumo: todos imaginaram que Renan seria o "novo" presidente do Senado.

Não foi difícil ter seguido por este caminho: em que pese o senado renovado, Renan tinha uma candidatura considerada sólida frente a um grupo pulverizado de facções. A candidatura do governo (afinal de contas, vitoriosa) era uma promessa que deixou de ser aventada até pelo governo - tanto é que o presidente Jair Bolsonaro telefonou para Renan logo que ele foi confirmado pelo MDB. Era a lógica. Ninguém imaginou que Davi Alcolumbre iria resistir com sua candidatura, menos ainda que ele fosse executar aquelas manobras regimentais para realizar a primeira sessão e consagrar a maioria em torno do voto aberto.

Também não passou pela cabeça de ninguém que o caso fosse parar no Supremo Tribunal Federal, e que uma sentença pré-datada (as palavras não são minhas, mas do senador Esperidião Amin) afirmando que quem deveria conduzir os trabalhos era João Maranhão (aliado de Renan) e não "o senador mais velho". Aquela reviravolta golpista da madrugada foi um balde de água fria em quem pensou em se livrar de Renan. O dia seguinte foi um dia de pranto e ranger de dentes nas redes, indignação e ódio contra o Supremo, principalmente contra Dias Toffoli - o usurpador que ousou dizer ao Senado como aquela casa deveria se conduzir.

Depois de tantas confusões, depois do barraco protagonizado por Katia Abreu, da baixaria de Renan partindo pra cima de Tasso Jereissati e da ameaça de se fazer um voto eletrônico apenas por conta da dificuldade da senadora Mara Gabrili, todos esperaram que se chegasse a um resultado favorável a Renan. É preciso dizer: ninguém também previu que Davi Alcolumbre fosse costurar tão bem com senadores de várias tendências (um arco de aliança que ia de Randolfe Rodrigues  a Marcos do Val) ou que nomes como os novatos Eduardo Girão (PROS), Selma Arruda (PSL) e até mesmo Marcos do Val - que enfrentou Renan de frente e não se intimidou mesmo quando o cangaceiro se aproximou dele de forma altiva e ameaçadora.

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De Davi Alcolumbre - o homem do dia, muito pouco se sabia. Oriundo de uma família de judeus marroquinos radicada no Amapá, o parlamentar do DEM não só manejou bem a situação até convencer o ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni de que ele era o melhor candidato do governo, como também soube usar o desconhecimento do grande público a seu favor ao manobras a convergência anti-Renan a seu favor. Embora beneficiário da fúria das redes sociais, Davi soube se conduzir de forma política ao transitar entre os diversos setores da casa. Não caiu na redução da briga entre Direita e esquerda, mas forjou uma tropa com os mais improváveis nomes. A mais significativa de suas conquistas ontem foi o apoio de Simone Tebet - a favorita anti-Renan quando Alcolumbre sequer era cogitado.

Claro, o senador ainda contou com a sorte. Graças a ela ele conseguiu ainda ser protagonista de um simbolismo caro a uma parcela cada vez maior da população brasileira. A origem ética e a disposição de enfrentar um sujeito como Renan tornaram inevitáveis a associação bíblica. Em termos políticos é um fato que agrada em muito os evangélicos e a narrativa pentecostal. Mas se for dito que alguém em sã consciência previu a vitória de Davi além do próprio senador e seu fiador Onyx - este um é mentiroso. A empreitada quase kamikaze poderia ter custado uma derrota acachapante e um chantagista enfurecido no comando do Senado. Só não aconteceu porque houve interferência externa da Providência. Renan continua influente, mas sem os cargos para comprar apoio não poderá mais contar com uma miríade de aliados que farão sutil desembarque antes de embarcarem com o timoneiro Davi. Não se espantem se verem as raposas renanzistas endossarem Bolsonaro nos próximos anos. É a política seguindo seu curso natural. Isto se o próprio Renan não esquecer as mágoas e se aproximar.

Aliás, talvez a única raposa que tenha previsto certa reviravolta foi a rasteira Katia Abreu. Depois de todo o circo armado no dia anterior, a senadora do Tocantins e uma das avalistas do golpe que manteve os direitos políticos de Dilma se colocou como pitbull de Renan mordendo a canela de Davi para pouco depois lhe oferecer flores. Segundo a senadora black bloc, foi um pedido de desculpas pelo comportamento do dia anterior. Inteligente. Katia percebeu que foi longe demais para agradar Renan, mas que não poderia de maneira alguma se indispor com o governo Bolsonaro e com o então provável futuro presidente da casa. Tão sagaz que poderia até lançar um manual de sobrevivência. 

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