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A Guerra Civil na Síria e a idiotia das redes sociais


Nos últimos dias o brasileiro médio não fala de outra coisa que não a Guerra Civil na Síria. Imagens de crianças mortas ou feridas, de pais e mães chorando, ruínas, sangue e destruição inundam a timeline em todas as redes sociais. Textos e mais textos são escritos em solidariedade aos afligidos pelos conflitos, mas a maioria são palavras de ordens e textões exprimindo o que há de pior na crítica social foda, todos com a mesma profundidade de um pires. Em meio a histeria dos ingênuos e a ostentação de virtude dos oportunistas, é preciso deixar claro que essa onda precisa acabar. 

A coisa está simplesmente fora de controle: quando o G noticiou no Facebook que a veterana atriz Tônia Carrero faleceu no hospital aos noventa e cinco anos, vários usuários da rede social se indignaram com a imprensa "que não fala nada sobre a guerra na Síria". Quando os jornais noticiaram pela manhã a morte prematura e inesperada do jovem zagueiro da Fiorentina Davide Astori, vítima de um ataque cardíaco aos trinta e um anos, lá estavam também os fariseus afirmando que "apesar da tragédia, também haviam milhares de mortos na Síria mas que ninguém prestava condolências por eles". O auge da loucura foi a corrente de esquizofrenia falando que o brasileiro se importa mais com o pé do Neymar do que com o conflito sírio. Quem aproveitou para dar as caras nessa foi o Quebrando o Tabu. 

Vamos aos fatos: a Guerra Civil Síria começou na esteira da chamada Primavera Árabe: foi quando vários países islâmicos passaram a ser sacudidos por violentos levantes civis. Sob os aplausos de ocidentais imbecilizados, bárbaros ainda piores que os tiranos que comandam a região pretendiam mudar o status quo. Fundamentalistas islâmicos, nacionalistas árabes, grupos tribais... um dos grupos que surgiu disso foi o Estado Islâmico (alguns especulam que os grupos fundadores foram rebeldes extremistas armados pelo governo Barack Obama para derrubarem Bashar Al Assad). Fato é que já na época se viam coisas pavorosas como um rebelde sírio que comeu o coração de um soldado sírio em vídeo que circulou na internet. Quando a onda chegou a Síria, viu um cenário não tão favorável: o governo Assad era apoiado pela Rússia e até pela China. O ditador afirmou que não cederia. Do outro lado, a então secretária de Estado Hillary Clinton e o presidente Obama decidiram não tomar parte no conflito diretamente. "Diretamente". Em vez disso, preferiram armar grupos rebeldes. Enfim, o resto é história. 

A questão é que este conflito começou em 2011. Depois disso o Oriente Médio foi sacudido pelo Estado Islâmico (com quem Dilma Rousseff propôs diálogo em plena Assembléia Geral da ONU), viu alguns de seus ditadores se reafirmarem enquanto outros sucumbiram. No final das contas, restaram daquela "esperança progressista" apenas a guerra civil síria e os radicais do EI (que passaram a organizar ataques terroristas em diversos países do Ocidente a medida em que o grupo definhava). De lá pra cá, os radicais perpetraram diversos ataques, ceifaram milhares de vidas - sempre demonstrando uma genialidade sádica pelo modo inventivo com que executavam suas vítimas. Seja por fogo, afogamento, fuzilamento, decapitação, enforcamento ou empalamento. Se viu de tudo ali. Mas nada disso comoveu as redes sociais. Cristãos queimados, gays arremessados do alto de prédios, mulheres apedrejadas, crianças afogadas, dissidentes enforcados... Nada viralizou tanto quanto aquilo que grupos de interesse aqui no Ocidente queriam que fosse motivo de indignação. Há coisa de um ou dois anos circularam vídeos com depoimentos "fakes" de supostos moradores da Síria dando adeus. Agora são as criancinhas sírias. Como se antes não tivéssemos aquela massa humana andando rumo a Europa (os irmãos ricos do Catar, Arábia Saudita e Bahrein não queriam saber de receber estes refugiados, que por sua vez preferiam conviver com os infiéis do primeiro mundo). O conflito se solidifica com Assad mostrando que entende mais de política do que os fracos analistas do Ocidente. 

Dito isso, fica a pergunta: se este conflito se arrasta há tantos anos sem qualquer resolução viável no horizonte enquanto tantos "analistas" e "moralistas" exigem que nós tomemos alguma atitude com relação ao assunto, por que diabos ninguém resolveu isso ainda? Aliás: o que o afegão médio poderá fazer para resolver essa questão? 

Temos uma massa de imbecis na internet querendo ostentar virtudes. É bonito dizer que se preocupa com o conflito na Síria, é relativamente simples compartilhar fotos de crianças na rede social e se achar o melhor ser humano da Terra. Difícil é ter cérebro para entender as dimensões das coisas. É óbvio que o pé do Neymar é um assunto mais próximo do brasileiro médio do que a guerra na Síria. É evidente que a morte de uma atriz conhecida causa mais comoção que desconhecidos em um país distante. Só os muito burros irão querer pautar a mídia para que fale destes assuntos dedicando mais tempo do que merecem. Ou gente muito desonesta, como os articuladores do Quebrando o Tabu. Eles apostam na ignorância, por isso querem estabelecer estas falsas relações. Ora, se fosse assim poderíamos dizer que é uma vergonha ver parte do país parando para prestar condolências a falecida Dona Marisa enquanto milhões de venezuelanos estão passando fome. Seria uma crítica imbecil, mas muito bem-vinda para quem faz baixa política.

Os idiotas das redes sociais não passam de massa de manobra de gente muito mais esperta que eles. Não passam de gado seguido o tocador de rebanho. Agora resolveram se mostrar como santos nessa nossa sociedade do espetáculo. Nenhum dos indignados se oferece para ir ser voluntário na Síria, ou para acolher uma criança daquele país em sua residência. Mas querem ditar regra nas redes sociais. Daqui a pouco estarão indignados com qualquer outro conflito da moda. Tanto são gado manipulado que só resolveram se preocupar com a Guerra da Síria depois de quase sete anos de conflito. Não querem nem que as redações noticiem falecimentos de figuras importantes como Astori e Tônia Carrero, querem impor ao mundo sua ignorância. Há dois problemas aqui: Nelson Rodrigues disse que inveja a burrice porque ela é infinita. Também disse que os idiotas dominarão o mundo por serem muitos. 

Oremos.


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