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O jornalista que emparedou Dilma não caiu na narrativa da “presidenta eleita que sofreu golpe por ser mulher”




O jornalista Mehdi Hassan atropelou Dilma Rousseff na entrevista. E isso surpreendeu um público brasileiro acostumado com entrevistas onde o presidente é tratado mais como um ser iluminado do que alguém que deve prestar contas ao público. Depois dessa entrevista, os jornalistas brasileiros deveriam sentir vergonha pelo trabalho que tem feito durante os últimos vinte anos. 

Mehdi Hassan é homem de esquerda, entre seus trabalhos há a biografia do ex-líder do Partido Trabalhista Ed Miliband. Antes de emparedar Dilma Rousseff, Mehdi havia viralizado por aqui ao emparedar Fernando Henrique Cardoso. Na época, a extrema-esquerda ficou em festa. Mal sabia que o carrasco voltaria anos depois para pegar Dilma Rousseff. A vida tem dessas ironias. 

O jornalista que emparedou Dilma não caiu na narrativa da “presidenta eleita que sofreu golpe por ser mulher”. Também não acreditou na tese de um governo eleito democraticamente que sofreu golpe das elites que não queriam ver pobres em universidades e negros em aviões (não  necessariamente nesta ordem). Se é verdade que Mehdi Hassan emparedou os opositores de Dilma na pessoa de FHC apontando a hipocrisia e elencando o caráter nefasto de setores contrários ao petismo, também é verdade que ele compreendeu o que se passa ao constatar que não há santos na política brasileira, e que Dilma e o PT são merecedores do destino que tiveram nas ruas, nas urnas e nos tribunais. 

Ver a expressão de cachorro que caiu da mudança é algo que não prevíamos. Dilma estava já usando a fantasia de inocente destronada por golpistas, golpistas que vandalizaram a economia de um país e solaparam a democracia. Essa era a narrativa forjada por seus comparsas. Como nossa imprensa prefere fazer propaganda, foi preciso que viesse um anglo-indiano para fazer a pergunta principal: Dilma é corrupta ou incompetente? 

De imediato já podemos excluir a hipótese da incompetência. Incompetentes se prejudicam, incompetentes se enrolam e não costumam ter muito êxito em suas empreitadas. Dilma, por outro lado, foi muito hábil. Associada ao plano criminoso de poder do Partido dos Trabalhadores, ela soube cavar seu caminho após as quedas de José Dirceu e Antonio Palocci. Foi assim que trilhou seu caminho para a sucessão de Lula. 

No papel de testa de ferro do chefe máximo da organização criminosa, a guerrilheira criminosa soube continuar um esquema. Tudo se organizou de maneira com que o PT pudesse ter seu “Reich de Mil Anos”. A etapa seguinte do petismo era preparar o caminho para Lula voltar em 2018. Seria algo como o lema nazista durante a anexação criminosa da Áustria: Ein Volk, ein Reich, ein Führer ("Um povo, um Reich, um líder"). 

Mas veio a Operação Lava Jato, e destruiu todos os sonhos. Como Dilma e seus comparsas são criminosos natos, adotaram uma nova narrativa para sobreviver a esses tempos controversos onde o povo se acha no direito de pedir justiça e ética. Essa narrativa é vendida diariamente por jornalistas, artistas, membros do Judiciário e do Ministério Público, ongueiros, políticos e militantes. Só não convenceu o também esquerdista Mehdi Hassan. Ele não se convenceu com as teses de suposta inocência, de que tudo se trata de um “golpe tramado pelas elites contra uma presidenta legitimamente eleita”. O cálculo de Hassan foi simples e lógico: se ela foi beneficiada, não foi incompetente. Foi cúmplice. 

Essa entrevista deve ser utilizada daqui em diante em todos os cursos de jornalismo ministrados Brasil afora. Isso é para mostrar como se faz jornalismo, que difere em muito do que costuma ser feito por aqui. Desde as diversas entrevistas de Dilma até as recentes interações de Michel Temer com a imprensa, o que se vê por aí é uma conversa amistosa que lembra remotamente o que deveria ser jornalismo imparcial. Inclusive aquela participação de Michel Temer no Roda Viva, que deixou muito a desejar. A última entrevista decente que se viu na entrevista brasileira foi a jornalista Sonia Bridi, que fez perguntas objetivas ao presidente Temer. O resto que se viu não é jornalismo, é assessoria de imprensa. 

A entrevista completa de Dilma Rousseff no Up Front pode ser vista aqui.


                                                                                                                                          
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